Quando alguém emagrece, a balança mostra apenas uma parte da história. Duas pessoas podem perder a mesma quantidade de peso e apresentar mudanças diferentes na distribuição da gordura corporal. É nesse ponto que a gordura visceral ganha importância.

Esse tipo de tecido adiposo fica localizado profundamente no abdômen, ao redor de órgãos como fígado, pâncreas e intestinos. Em excesso, está associado a resistência à insulina, diabetes tipo 2, alterações nos triglicerídeos e maior risco cardiometabólico.

Estudos com Tirzepatida mostram que o emagrecimento pode envolver uma redução importante da gordura visceral. Em um subestudo de composição corporal do SURMOUNT-1, participantes tratados com Tirzepatida apresentaram redução média de 40,1% na massa de tecido adiposo visceral após 72 semanas, enquanto o grupo placebo apresentou redução de 7,3%.

Esses números ajudam a explicar por que acompanhar apenas o peso pode ser insuficiente. A circunferência da cintura, a composição corporal e os marcadores metabólicos podem acrescentar informações relevantes sobre as mudanças que estão acontecendo no organismo.

Importante: este conteúdo é exclusivamente informativo e não substitui avaliação médica, diagnóstico ou tratamento individualizado.

O que é gordura visceral?

A gordura corporal não fica armazenada em um único lugar.

Parte dela se encontra logo abaixo da pele. Esse tecido é chamado de gordura subcutânea e é aquele que conseguimos perceber com mais facilidade ao tocar determinadas regiões do corpo.

Já a gordura visceral fica mais profundamente no abdômen, envolvendo órgãos internos.

Ter alguma quantidade desse tecido é normal. O problema está no acúmulo excessivo.

Quando existe excesso de adiposidade abdominal profunda, é mais comum encontrar alterações metabólicas como resistência à insulina, pressão arterial elevada, aumento dos triglicerídeos e acúmulo de gordura no fígado. Estudos populacionais recentes também reforçam a associação entre maior quantidade de tecido adiposo visceral e alterações como síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e resistência à insulina.

Por isso, a distribuição de gordura importa tanto quanto a quantidade total de peso.

Gordura abdominal e gordura visceral são a mesma coisa?

Não exatamente.

Quando falamos em “barriga”, estamos observando uma combinação de diferentes tecidos.

A região abdominal pode conter:

  • tecido adiposo subcutâneo;
  • tecido adiposo visceral;
  • músculos;
  • órgãos;
  • líquidos;
  • conteúdo intestinal.

Por isso, não é possível olhar para o abdômen de uma pessoa e determinar quanto tecido visceral ela possui.

Da mesma forma, uma redução visual da barriga não permite calcular exatamente quanto desse tecido foi perdido.

Exames de imagem e métodos de composição corporal conseguem fornecer informações mais detalhadas em situações específicas.

Por que esse tipo de gordura preocupa mais?

O tecido adiposo não funciona apenas como um depósito passivo de energia.

Ele participa da produção de hormônios e moléculas envolvidas no metabolismo.

Quando o acúmulo visceral é elevado, existe associação com alterações que favorecem resistência à insulina, diabetes tipo 2 e doença cardiovascular.

Uma análise publicada em 2024 em pessoas com diabetes tipo 2 também observou que o tratamento com Tirzepatida foi acompanhado de redução significativa do tecido adiposo visceral e da gordura hepática.

Isso torna a gordura visceral especialmente relevante em conteúdos sobre obesidade e saúde metabólica: perder centímetros de cintura pode representar mudanças que vão além da aparência.

O que os estudos com Tirzepatida encontraram?

Uma análise de composição corporal do SURMOUNT-1 avaliou 160 participantes que realizaram exames de DXA no início e após 72 semanas.

Entre os participantes tratados com Tirzepatida, a redução média foi de:

  • 21,3% do peso corporal;
  • 33,9% da massa de gordura total;
  • 10,9% da massa magra;
  • 18,1 centímetros de circunferência da cintura;
  • 40,1% da massa de gordura visceral.

No grupo placebo, a redução média da gordura visceral foi de 7,3%.

Esses resultados mostram que a perda de peso observada no estudo veio acompanhada de uma diminuição importante da adiposidade abdominal profunda.

É importante lembrar que esse foi um subestudo com 160 participantes dentro de um ensaio muito maior. Portanto, os números representam médias do grupo e não uma previsão do que acontecerá com cada pessoa.

Perder 40% de gordura visceral significa perder 40% da barriga?

Não.

Essa interpretação estaria errada.

O valor de 40,1% encontrado no estudo se refere à massa de tecido adiposo visceral estimada por DXA.

A circunferência abdominal diminuiu, em média, 18,1 cm no mesmo grupo, mas são medidas diferentes.

A barriga visível também contém gordura subcutânea, músculos e outros tecidos.

Uma pessoa pode perceber grande mudança nas roupas ou na fita métrica sem ter como saber exatamente qual porcentagem de tecido visceral foi eliminada.

Pessoa medindo a cintura em conteúdo sobre gordura visceral e Tirzepatida

Por que a cintura diminuiu tanto no estudo?

A redução da cintura provavelmente reflete a combinação de perda de gordura total, redução de tecido abdominal e mudanças na composição corporal.

No estudo de composição corporal do SURMOUNT-1, a redução média de 18,1 cm foi muito maior que os 3,4 cm observados no placebo.

Essa medida é interessante porque é simples e pode ser repetida ao longo do tempo.

Ela não substitui exames, mas pode mostrar mudanças que a balança não evidencia sozinha.

Uma pessoa, por exemplo, pode passar algumas semanas com pouca variação de peso e ainda assim reduzir centímetros de cintura.

A fita métrica consegue medir gordura visceral?

Não diretamente.

A fita mede a circunferência abdominal.

Essa medida se correlaciona com adiposidade central e pode ajudar na avaliação do risco cardiometabólico, mas não separa o que é tecido subcutâneo do que está ao redor dos órgãos.

Para quantificar gordura visceral de forma mais específica, métodos como tomografia, ressonância magnética ou determinados equipamentos de DXA podem ser utilizados.

Na prática clínica, porém, nem todo paciente precisa desses exames.

Peso, IMC, cintura, exames laboratoriais, pressão arterial e histórico clínico muitas vezes oferecem informações suficientes para acompanhamento.

Onde medir a cintura?

A técnica utilizada deve ser consistente.

Existem diferentes protocolos, e o local exato pode variar conforme a diretriz ou objetivo da avaliação.

O mais importante para quem acompanha evolução em casa é tentar repetir sempre:

  • o mesmo ponto do abdômen;
  • a mesma posição;
  • uma fita sem apertar excessivamente a pele;
  • condições semelhantes;
  • preferencialmente o mesmo horário.

Alterar o ponto de medição a cada semana pode produzir diferenças que não correspondem a uma mudança real.

A cintura pode diminuir sem a balança baixar?

Sim.

O peso corporal varia por vários motivos, incluindo água, glicogênio, conteúdo intestinal e outras oscilações fisiológicas.

Por isso, mudanças de curto prazo na balança nem sempre representam ganho ou perda de gordura.

A redução gradual da cintura pode ser um sinal útil de mudança corporal, principalmente quando analisada junto de tendência de peso e outros indicadores.

Isso não significa que cada centímetro perdido corresponda a uma quantidade específica de gordura visceral.

O acompanhamento funciona melhor quando diferentes medidas são analisadas em conjunto.

Pessoas com o mesmo IMC podem ter riscos diferentes?

Sim.

O IMC é útil para estudos populacionais e para parte da avaliação clínica, mas não mostra onde a gordura está distribuída.

Duas pessoas com o mesmo peso e altura podem apresentar quantidades diferentes de tecido visceral, massa muscular e gordura subcutânea.

É por isso que a avaliação da obesidade não deve se limitar exclusivamente ao número apresentado pelo IMC.

A circunferência da cintura e a presença de alterações como hipertensão, pré-diabetes, diabetes tipo 2, dislipidemia e esteatose hepática ajudam a construir uma visão mais completa do risco metabólico.

Tirzepatida “queima” especificamente gordura da barriga?

Não é correto apresentar o medicamento dessa forma.

A Tirzepatida não funciona como um tratamento localizado para o abdômen.

Ela atua em mecanismos relacionados aos receptores de GIP e GLP-1, regula o apetite, reduz a ingestão alimentar e produz sensação de saciedade. A indicação brasileira para controle crônico do peso é associada à dieta de baixa caloria e ao aumento da atividade física para adultos que atendem aos critérios definidos pela Anvisa.

Com a perda de peso, ocorre redução da gordura corporal em diferentes regiões.

Os estudos mostram diminuição importante de gordura visceral, mas isso não significa que o medicamento escolha exclusivamente a barriga como local de perda.

O medicamento elimina apenas gordura?

Não.

Esse é outro ponto importante.

No subestudo do SURMOUNT-1, aproximadamente 74% do peso perdido no grupo Tirzepatida correspondeu a massa de gordura e cerca de 26% a massa magra.

“Massa magra” não significa apenas músculo. Ela inclui água, órgãos, tecidos e outros componentes sem gordura.

Ainda assim, esses dados reforçam a importância de preservar massa muscular durante o emagrecimento com alimentação adequada e exercício de força.

Por isso, uma redução da gordura visceral deve acontecer dentro de um objetivo mais amplo de melhorar composição corporal e saúde, e não apenas de diminuir o número na balança.

Leia também: Tirzepatida e composição corporal: quanto da perda de peso é gordura e quanto é massa magra?

Exercício ajuda a reduzir adiposidade abdominal?

Atividade física é uma parte importante do tratamento da obesidade.

Exercícios aeróbicos contribuem para gasto energético, condicionamento cardiovascular e sensibilidade à insulina.

Treinamento de força ajuda a preservar ou desenvolver musculatura e capacidade funcional.

Uma rotina combinada pode ser especialmente útil durante a perda de peso.

Além disso, exercício não deve ser visto apenas como uma ferramenta para “queimar calorias”. Ele pode melhorar a saúde mesmo quando a balança muda pouco.

A própria indicação aprovada pela Anvisa estabelece a Tirzepatida para controle de peso como adjuvante à alimentação com redução calórica e ao aumento da atividade física.

Alimentação faz diferença?

Sim.

A Tirzepatida pode reduzir o apetite e facilitar um déficit energético, mas isso não torna a qualidade da alimentação irrelevante.

Durante o emagrecimento, é importante consumir quantidade adequada de proteínas, fibras, vegetais e outros nutrientes.

Reduzir excessos frequentes de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas também pode facilitar o controle energético e metabólico.

Uma alimentação excessivamente restritiva pode dificultar a ingestão de nutrientes e a preservação de massa magra.

O objetivo deve ser criar um padrão sustentável, e não simplesmente comer o mínimo possível.

A redução da cintura melhora resistência à insulina?

Existe uma relação importante entre adiposidade abdominal e resistência à insulina.

Quando há perda de peso e diminuição da gordura visceral, é comum observar melhora da sensibilidade à insulina e de outros marcadores metabólicos.

Isso não significa que toda redução de cintura produza a mesma mudança de glicemia.

Genética, função pancreática, alimentação, atividade física, medicamentos e duração das alterações metabólicas também influenciam.

No caso da Tirzepatida, a Anvisa informa que o medicamento também melhora a sensibilidade à insulina, além de seus efeitos sobre apetite e ingestão alimentar.

Leia também: Tirzepatida e resistência à insulina: como o medicamento atua no metabolismo da glicose.

E a gordura no fígado?

Adiposidade visceral e gordura hepática frequentemente aparecem juntas dentro de um contexto de resistência à insulina e obesidade metabólica.

Estudos com Tirzepatida em pessoas com diabetes tipo 2 encontraram reduções tanto do tecido visceral quanto da gordura hepática.

Isso ajuda a explicar por que a avaliação metabólica não deve considerar órgãos e tecidos de forma completamente isolada.

A melhora do peso pode ocorrer ao mesmo tempo que mudanças no fígado, na glicemia e na distribuição da gordura corporal.

Leia também: Tirzepatida e gordura no fígado: o que os estudos já mostram.

É preciso fazer DXA para acompanhar?

Na maioria dos casos, não.

O DXA é muito útil em pesquisa e pode ser usado clinicamente para determinadas avaliações, mas não é necessário realizar o exame repetidamente apenas para saber se o tratamento está funcionando.

Indicadores mais simples podem ser acompanhados ao longo do tempo:

  • tendência do peso;
  • circunferência da cintura;
  • como as roupas vestem;
  • força e desempenho físico;
  • pressão arterial;
  • glicemia e hemoglobina glicada quando indicadas;
  • perfil lipídico;
  • avaliação médica.

O exame mais sofisticado nem sempre é o que traz a informação mais útil para uma decisão clínica.

Quanto de cintura é normal perder?

Não existe uma quantidade universal.

A redução depende do peso inicial, distribuição corporal, sexo, genética, duração do tratamento, resposta individual, alimentação e atividade física.

Os 18,1 cm encontrados no subestudo do SURMOUNT-1 são uma média após 72 semanas.

Não devem ser usados como uma meta obrigatória.

Uma pessoa pode obter benefícios clínicos importantes com uma redução menor.

E se eu perder peso, mas a cintura quase não mudar?

Isso pode acontecer.

A distribuição da perda varia entre indivíduos.

Também é possível que diferenças de técnica na fita métrica escondam mudanças reais.

Se peso, exames e outros indicadores estão melhorando, uma única medida não deve ser interpretada isoladamente.

Por outro lado, se houver dúvidas sobre composição corporal ou risco metabólico, o acompanhamento profissional pode ajudar a decidir se é necessário investigar mais.

A gordura visceral volta se houver reganho de peso?

Pode voltar.

A obesidade é uma doença crônica, e a recuperação de peso após o emagrecimento pode vir acompanhada de novo acúmulo de tecido adiposo.

Por isso, manutenção faz parte do tratamento.

A própria indicação brasileira da Tirzepatida para controle crônico do peso inclui perda e manutenção de peso em adultos que atendem aos critérios definidos pela Anvisa.

Isso reforça que o objetivo não é apenas emagrecer rapidamente, mas conseguir sustentar benefícios metabólicos ao longo do tempo.

Perguntas frequentes

Tirzepatida reduz gordura visceral?

Estudos mostram redução importante desse tecido durante o tratamento. No subestudo de DXA do SURMOUNT-1, a redução média foi de 40,1% após 72 semanas, comparada a 7,3% com placebo.

Reduzir a cintura significa perder gordura dos órgãos?

Uma cintura menor pode acompanhar redução da adiposidade abdominal, mas a fita métrica não consegue medir especificamente o tecido ao redor dos órgãos.

A balança consegue mostrar onde emagreci?

Não. A balança mostra peso total. Ela não diferencia gordura abdominal, gordura subcutânea, músculo, água e outros componentes.

Preciso fazer exame para medir gordura abdominal profunda?

Geralmente não. Exames específicos podem ser úteis em determinadas situações, mas a necessidade deve ser avaliada individualmente.

Tirzepatida elimina apenas gordura?

Não. Durante grandes perdas de peso também ocorre redução de massa magra. No subestudo do SURMOUNT-1, cerca de 74% da redução de peso foi proveniente de massa de gordura e 26% de massa magra.

Posso medir a cintura toda semana?

Pode, desde que a técnica seja semelhante em cada medição. Para muitas pessoas, observar tendências ao longo das semanas é mais útil do que comparar variações de poucos dias.

Conclusão

A gordura visceral é um componente importante da obesidade porque está relacionada a diferentes alterações metabólicas e cardiovasculares.

Os estudos de composição corporal ajudam a mostrar que os efeitos da Tirzepatida vão além do número apresentado pela balança.

No subestudo do SURMOUNT-1, participantes tratados apresentaram redução média de 40,1% da massa de tecido adiposo visceral e de 18,1 centímetros da circunferência da cintura após 72 semanas.

Ao mesmo tempo, o estudo mostrou que o emagrecimento envolveu tanto perda de gordura quanto de massa magra, reforçando a importância de olhar para composição corporal como um todo.

A fita métrica não consegue medir diretamente gordura visceral, mas acompanhar cintura junto com peso, exames e outros indicadores pode fornecer uma visão mais completa da evolução.

Mais importante do que perseguir um número específico é buscar melhora sustentável de peso, capacidade física e saúde metabólica.


Fontes e referências

Look M, Dunn JP, Kushner RF et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2025.

Jastreboff AM et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. New England Journal of Medicine. 2022.

Effect of tirzepatide on body fat distribution pattern in people with type 2 diabetes. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2024.

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mounjaro® (tirzepatida): nova indicação.

Conteúdo atualizado em agosto de 2026.

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May Stolber

Criadora de conteúdo e autora no TirzeClub, onde escreve sobre tirzepatida, emagrecimento, alimentação, atividade física e bem-estar. Seu objetivo é transformar temas complexos em conteúdos claros e acessíveis, utilizando fontes confiáveis e atualizadas. May não atua como profissional de saúde, e seus conteúdos têm caráter informativo e educacional.

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