O pré-diabetes é uma condição em que a glicose está acima do normal, mas ainda não atinge os critérios usados para diagnosticar diabetes tipo 2. Ele costuma aparecer junto de resistência à insulina, excesso de peso, gordura abdominal e outras alterações metabólicas.

Nos últimos anos, a Tirzepatida passou a chamar atenção nesse contexto porque estudos em pessoas com obesidade e pré-diabetes mostraram perda de peso importante e uma redução expressiva da progressão para diabetes tipo 2.

O resultado mais robusto veio da extensão de três anos do estudo SURMOUNT-1. Entre participantes que tinham obesidade e pré-diabetes no início do estudo, apenas 1,3% daqueles tratados com Tirzepatida receberam diagnóstico de diabetes tipo 2 durante 176 semanas, comparados a 13,3% no grupo placebo.

Esses dados são muito relevantes, mas precisam ser interpretados corretamente: a Tirzepatida não deve ser apresentada como uma “cura” do pré-diabetes nem como um medicamento que qualquer pessoa com glicose levemente elevada deva usar.

Neste artigo, você vai entender o que caracteriza essa alteração, o que o SURMOUNT-1 mostrou, como a perda de peso participa do efeito e por que acompanhamento, alimentação e atividade física continuam importantes.

Importante: este conteúdo é exclusivamente informativo e não substitui avaliação médica. Diagnóstico e tratamento dependem de exames, histórico clínico e fatores de risco individuais.

O que é pré-diabetes?

O pré-diabetes acontece quando os níveis de glicose estão acima da faixa considerada normal, mas abaixo dos valores usados para diagnosticar diabetes.

De acordo com o NIDDK, três exames podem ser utilizados para identificar essa condição:

  • hemoglobina glicada (A1C) entre 5,7% e 6,4%;
  • glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL;
  • glicemia de 2 horas entre 140 e 199 mg/dL após teste oral de tolerância à glicose.

Esses exames não identificam necessariamente as mesmas pessoas, e o diagnóstico deve ser interpretado por um profissional.

Ter um resultado alterado não significa que o desenvolvimento de diabetes tipo 2 seja inevitável. O risco pode mudar ao longo do tempo conforme peso, atividade física, alimentação, genética e outras condições de saúde.

Qual a relação com resistência à insulina?

A resistência à insulina é um mecanismo frequente por trás do aumento da glicose.

Quando músculos, fígado e tecido adiposo respondem menos à insulina, o pâncreas precisa produzir mais desse hormônio para manter a glicose controlada.

Durante algum tempo, o organismo consegue compensar. Depois, a capacidade das células beta pancreáticas pode deixar de ser suficiente, e a glicose começa a subir.

Por isso, pré-diabetes e resistência à insulina são conceitos relacionados, mas não idênticos.

Uma pessoa pode ter resistência à insulina antes de preencher critérios laboratoriais para glicose alterada.

Por que essa fase merece atenção?

Essa condição funciona como um importante sinal de risco metabólico.

Pessoas nessa faixa apresentam maior probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2 no futuro e também podem ter outros fatores associados, como:

  • pressão alta;
  • triglicerídeos elevados;
  • HDL baixo;
  • excesso de gordura abdominal;
  • obesidade;
  • doença hepática metabólica.

Isso não significa que toda pessoa evoluirá para diabetes.

A identificação precoce cria uma oportunidade para agir antes que a doença se estabeleça.

Onde a Tirzepatida entra nessa história?

A Tirzepatida atua nos receptores de GIP e GLP-1.

A Anvisa informa que o medicamento melhora a sensibilidade à insulina, influencia a secreção de insulina e glucagon de maneira dependente da glicose, reduz a ingestão alimentar e aumenta a saciedade.

Além disso, pode produzir perda de peso expressiva em pessoas que atendem aos critérios de tratamento para obesidade ou sobrepeso.

Esses efeitos são especialmente relevantes porque obesidade e baixa sensibilidade à insulina estão fortemente ligadas ao pré-diabetes.

O que o estudo SURMOUNT-1 avaliou?

O SURMOUNT-1 foi um estudo de fase 3 realizado em adultos com obesidade ou sobrepeso, sem diabetes tipo 2.

No total, 2.539 participantes foram incluídos. Desses, 1.032 tinham pré-diabetes no início do estudo.

Esse subgrupo recebeu Tirzepatida nas doses de 5 mg, 10 mg ou 15 mg, ou placebo, por um total de 176 semanas — aproximadamente três anos e quatro meses.

Depois disso, houve um período adicional de 17 semanas sem tratamento para avaliar o que acontecia após a retirada.

Esse acompanhamento longo permitiu observar não apenas a perda de peso, mas também quantos participantes evoluíram para diabetes tipo 2.

O que aconteceu depois de 176 semanas?

Os resultados foram marcantes.

Durante as 176 semanas de tratamento, o diagnóstico de diabetes tipo 2 ocorreu em:

  • 1,3% dos participantes dos grupos Tirzepatida;
  • 13,3% dos participantes do grupo placebo.

O hazard ratio foi de 0,07, indicando risco muito menor de progressão no grupo tratado durante o período estudado.

Ao mesmo tempo, os participantes apresentaram perdas médias de peso de:

  • 12,3% com 5 mg;
  • 18,7% com 10 mg;
  • 19,7% com 15 mg;
  • 1,3% com placebo.

Esses números mostram que o efeito observado sobre diabetes aconteceu em um contexto de grande redução do peso corporal.

O que aconteceu depois que o tratamento foi interrompido?

Essa parte do estudo é especialmente interessante.

Após as 176 semanas, os participantes passaram 17 semanas sem o tratamento designado.

No final desse período, o diagnóstico de diabetes tipo 2 havia ocorrido em:

  • 2,4% daqueles que haviam recebido Tirzepatida;
  • 13,7% daqueles que haviam recebido placebo.

Ou seja, a diferença entre os grupos continuou grande, mas houve aumento no número de diagnósticos depois da interrupção.

Isso reforça uma ideia importante: os benefícios metabólicos obtidos durante o tratamento não devem ser interpretados como uma proteção permanente depois da retirada.

Isso significa que a Tirzepatida previne diabetes?

Os dados mostram que, na população estudada, o tratamento foi associado a uma redução muito expressiva da progressão para diabetes tipo 2 durante três anos.

Mas a frase precisa vir acompanhada de contexto.

Os participantes tinham:

  • obesidade;
  • alteração glicêmica;
  • acompanhamento dentro de um estudo clínico;
  • intervenção de estilo de vida;
  • critérios específicos de inclusão.

Portanto, não é correto afirmar que o medicamento previne diabetes em qualquer pessoa ou que deveria ser usado por todos com glicose elevada.

A evidência é forte para aquele grupo específico estudado.

Tirzepatida é aprovada especificamente para pré-diabetes?

Não como uma indicação isolada.

No Brasil, a Anvisa aprovou Mounjaro inicialmente para melhorar o controle glicêmico em adultos com diabetes tipo 2. Posteriormente, o medicamento recebeu indicação para controle crônico do peso em adultos que atendem aos critérios estabelecidos.

Na indicação para controle de peso, pessoas com IMC a partir de 27 kg/m² podem ser elegíveis quando existe pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso — e a Anvisa cita pré-diabetes entre os exemplos.

Isso é diferente de dizer que qualquer pessoa com hemoglobina glicada de 5,8%, por exemplo, tenha indicação automática para usar Tirzepatida.

A decisão depende do quadro completo.

A melhora vem só da perda de peso?

A perda de peso parece ter um papel muito importante.

Uma análise do SURMOUNT-1 publicada em 2025 avaliou sensibilidade à insulina e função das células beta pancreáticas.

Os pesquisadores observaram que a melhora da sensibilidade à insulina esteve principalmente associada à redução do peso, embora parte do efeito também parecesse relacionada diretamente ao tratamento.

Já as melhorias em medidas de função das células beta estiveram mais fortemente associadas à Tirzepatida.

Isso ajuda a explicar por que a melhora metabólica pode envolver mais de um mecanismo.

O que acontece com as células beta?

As células beta do pâncreas produzem insulina.

Quando existe resistência à insulina, elas precisam trabalhar mais para manter a glicose em níveis adequados.

Com o tempo, algumas pessoas perdem parte dessa capacidade de compensação.

A análise de 2025 do SURMOUNT-1 encontrou melhora de parâmetros relacionados à função dessas células após 72 semanas de tratamento.

Isso não significa regenerar completamente o pâncreas ou “curar” alterações metabólicas.

Significa que medidas usadas em pesquisa mostraram uma resposta mais favorável durante o tratamento.

Voltar à glicemia normal significa que o problema desapareceu para sempre?

Não necessariamente.

Uma pessoa pode sair da faixa de pré-diabetes e voltar para valores considerados normais.

Isso é uma excelente evolução.

Mas fatores de risco podem continuar presentes.

Se houver recuperação de peso, sedentarismo, mudanças importantes na alimentação ou progressão de outras alterações metabólicas, a glicose pode voltar a subir.

Por isso, é mais adequado falar em regressão para normoglicemia ou melhora do estado glicêmico do que em “cura definitiva”.

Refeição equilibrada com frango, vegetais, grãos e abacate

Alimentação continua importante durante o tratamento

Sim.

O medicamento pode reduzir o apetite e facilitar a perda de peso, mas a qualidade da alimentação continua influenciando a saúde metabólica.

Um padrão adequado pode incluir:

  • vegetais;
  • frutas;
  • leguminosas;
  • proteínas;
  • cereais integrais;
  • fontes adequadas de gordura;
  • alimentos minimamente processados.

Não existe necessidade universal de eliminar completamente carboidratos.

O objetivo é construir uma alimentação sustentável que ajude no controle do peso e da glicose.

Açúcar precisa ser proibido?

Não é necessário transformar um único alimento em responsável pelo problema.

O desenvolvimento de diabetes tipo 2 envolve genética, peso, gordura visceral, atividade física, função pancreática, alimentação e muitos outros fatores.

O excesso frequente de bebidas açucaradas e alimentos de baixa qualidade nutricional pode contribuir para ganho de peso e piora metabólica, mas isso é diferente de afirmar que consumir açúcar ocasionalmente “causa diabetes”.

Para quem apresenta glicose alterada, contexto e padrão alimentar são mais importantes do que uma regra isolada.

Exercício pode ajudar?

Sim.

Atividade física melhora a utilização de glicose pelos músculos e pode aumentar a sensibilidade à insulina.

Caminhada, ciclismo e outras atividades aeróbicas são úteis, e treinamento de força também tem papel importante.

O músculo é um dos principais tecidos envolvidos na captação de glicose.

Além disso, preservar massa muscular durante o emagrecimento é importante para força, funcionalidade e saúde metabólica.

Usar Tirzepatida não torna exercício desnecessário.

Perder pouco peso já pode ajudar?

Sim.

Estudos de prevenção de diabetes realizados muito antes da Tirzepatida já mostravam que mudanças sustentadas de peso e atividade física podem reduzir o risco de progressão.

Isso significa que não é necessário imaginar que apenas perdas de 15% ou 20% produzem benefício metabólico.

Reduções menores podem ser clinicamente relevantes, dependendo da pessoa.

A Tirzepatida se destaca porque pode produzir perdas de peso maiores em parte dos pacientes, mas o objetivo deve ser individualizado.

Preciso medir insulina toda hora?

Não.

Para acompanhar risco de diabetes, exames como glicemia de jejum e hemoglobina glicada costumam ser mais utilizados na rotina clínica.

O teste oral de tolerância à glicose também pode ser indicado em determinados casos.

Dosagens de insulina e cálculos como HOMA-IR podem fornecer informações adicionais em contextos específicos, mas não são necessários para todas as pessoas.

O acompanhamento deve ser definido pelo profissional responsável.

A hemoglobina glicada pode melhorar rapidamente?

Pode começar a mudar ao longo dos primeiros meses porque reflete aproximadamente a média de glicose dos últimos três meses.

Mas a resposta depende do nível inicial, perda de peso, alimentação e outros fatores.

Não faz sentido repetir esse exame toda semana.

A frequência adequada deve ser definida conforme o risco e o plano de acompanhamento.

Quem tem pré-diabetes precisa de medicamento?

Nem sempre.

Para muitas pessoas, mudanças de peso, alimentação e atividade física são fundamentais e podem ser suficientes para melhorar a glicose.

Em determinadas situações, profissionais podem considerar tratamentos adicionais conforme peso, idade, risco metabólico e outras condições.

O importante é não transformar o diagnóstico em uma indicação automática de Tirzepatida.

O medicamento possui critérios próprios de uso.

Posso usar Tirzepatida só para “não virar diabético”?

Essa decisão não deve ser tomada dessa forma.

O SURMOUNT-1 mostrou um benefício importante em pessoas com obesidade e pré-diabetes, mas isso não significa que o medicamento seja apropriado para qualquer pessoa preocupada com o futuro.

O profissional precisa considerar:

  • IMC;
  • histórico de peso;
  • glicemia e A1C;
  • outras doenças;
  • medicamentos;
  • riscos e contraindicações;
  • objetivos;
  • tolerabilidade.

O tratamento deve se encaixar no quadro clínico, e não apenas no medo de desenvolver diabetes.

O que acontece se a pessoa recuperar peso?

O reganho pode afetar novamente a sensibilidade à insulina e a glicose.

Por isso, a fase de manutenção merece atenção.

Estudos de retirada da Tirzepatida mostram que parte dos participantes recupera peso depois da interrupção.

Isso não significa que todo benefício desapareça imediatamente, mas reforça que obesidade e alterações metabólicas são problemas crônicos.

Leia também: Como evitar o efeito rebote no emagrecimento com Tirzepatida.

Quem deveria acompanhar a glicose com mais atenção?

O acompanhamento é especialmente importante em pessoas com:

  • histórico familiar forte de diabetes;
  • obesidade;
  • aumento de circunferência abdominal;
  • pressão alta;
  • triglicerídeos elevados;
  • doença hepática metabólica;
  • síndrome dos ovários policísticos;
  • histórico de diabetes gestacional;
  • exames anteriores alterados.

A frequência dos exames deve ser definida individualmente.

Perguntas frequentes

Tirzepatida pode reduzir o risco de diabetes tipo 2?

No SURMOUNT-1, pessoas com obesidade e glicose alterada tratadas por 176 semanas tiveram uma taxa muito menor de progressão para diabetes tipo 2 do que aquelas que receberam placebo.

Quanto foi a diferença no estudo?

Durante 176 semanas, 1,3% dos participantes tratados receberam diagnóstico de diabetes, comparados a 13,3% no placebo.

O benefício continuou depois de parar?

Após 17 semanas sem o tratamento, as taxas foram de 2,4% versus 13,7%, respectivamente.

Tirzepatida é um tratamento específico para pré-diabetes?

Não como indicação isolada. No Brasil, o medicamento é aprovado para diabetes tipo 2 e para controle crônico do peso em pessoas que atendem aos critérios estabelecidos pela Anvisa.

A glicemia pode voltar ao normal?

Pode. Melhoras importantes do estado glicêmico foram observadas em estudos, mas isso não significa proteção permanente.

Exercício continua necessário?

Sim. Atividade física continua sendo uma ferramenta importante para sensibilidade à insulina, controle do peso e prevenção metabólica.

Preciso cortar carboidratos?

Não existe necessidade universal de eliminar todos os carboidratos. A alimentação deve ser individualizada e sustentável.

Conclusão

O pré-diabetes representa uma importante oportunidade de prevenção porque a glicose já está alterada, mas o diabetes tipo 2 ainda não se estabeleceu.

A extensão de três anos do SURMOUNT-1 trouxe uma das evidências mais importantes sobre Tirzepatida nesse contexto.

Entre pessoas com obesidade e glicose alterada no início do estudo, diabetes tipo 2 foi diagnosticado em apenas 1,3% dos participantes tratados com Tirzepatida durante 176 semanas, comparados a 13,3% com placebo.

Depois de 17 semanas sem tratamento, a diferença continuou significativa: 2,4% versus 13,7%.

Ao mesmo tempo, o tratamento produziu reduções expressivas de peso e melhorias em sensibilidade à insulina e função das células beta.

Esses resultados são promissores, mas não transformam a Tirzepatida em uma solução automática para qualquer pessoa com exame alterado.

A indicação depende de obesidade, sobrepeso, comorbidades, diabetes e outros critérios clínicos.

Alimentação, atividade física, controle do peso e acompanhamento continuam sendo fundamentais.

O mais importante é usar o diagnóstico de pré-diabetes como uma oportunidade para agir cedo e reduzir o risco metabólico no longo prazo.


Fontes e referências

  • Jastreboff AM et al. — Tirzepatide for Obesity Treatment and Diabetes Prevention. New England Journal of Medicine.
  • Mari A et al. — Tirzepatide Treatment and Associated Changes in β-Cell Function and Insulin Sensitivity in People With Obesity or Overweight With Prediabetes or Normoglycemia. Diabetes Care.
  • National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK) — testes e diagnóstico de prediabetes.
  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Mounjaro® (tirzepatida): nova indicação.
  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Mounjaro® (tirzepatida): novo registro.

Conteúdo atualizado em agosto de 2026.

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May Stolber

Criadora de conteúdo e autora no TirzeClub, onde escreve sobre tirzepatida, emagrecimento, alimentação, atividade física e bem-estar. Seu objetivo é transformar temas complexos em conteúdos claros e acessíveis, utilizando fontes confiáveis e atualizadas. May não atua como profissional de saúde, e seus conteúdos têm caráter informativo e educacional.

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